terça-feira, 11 de setembro de 2012

ENTREVISTA - CELSO FERRO 

Samanta Sallum
Da equipe do Correio em 11 de Março de 2009 para o Jornal Correio Braziliense

Prestes a se aposentar, um dos homens fortes da Polícia Civil do DF faz defesa das interceptações telefônicas.
 
Temido e respeitado. Misterioso e controverso. Mas a melhor definição do delegado Celso Ferro vem dele mesmo: “Uma peça difícil de mexer” na estrutura da Polícia Civil do DF. Isso por dominar, controlar e guardar um arsenal de informações sigilosas que incomodam desde o tráfico organizado até autoridades nas mais diversas esferas do poder local. Atravessou governos, mas agora ele mesmo fez o movimento no tabuleiro. Decidiu sair do jogo. Esta semana, sai oficialmente a aposentadoria. Na tarde da sexta-feira passada, enquanto terminava de esvaziar gavetas, deu ao Correio a última entrevista exclusiva ainda como chefe do Departamento de Atividades Especiais (Depate).

Ferro foi o homem mais poderoso da polícia nos últimos 10 anos. E, pelas informações que levará consigo, continuará tendo prestígio. Subordinadas a ele havia nada menos que 12 divisões, somando cerca de 400 policiais. Entre elas, a de Combate ao Crime Organizado, a de Crimes contra a Administração Pública e a de Repressão a Sequestros. Celso Ferro esteve à frente de importantes operações policiais no DF, algumas de projeção nacional. Mas sua marca foi transformar a Polícia Civil da capital na mais bem aparelhada do país. Professor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), especialista em inteligência tecnológica e em interceptações telefônicas, é ferrenho defensor do uso do grampo nas investigações. Trouxe para a capital técnicas israelenses. Afirma que a tendência das interceptações é só aumentar. Hoje, somente a Civil no DF monitora 400 telefones por dia com autorização judicial. A capacidade total é de controlar 1,2 mil linhas. No início da década de 90, não passavam de 30 por dia. “A tecnologia está a serviço dos bandidos, então temos de usá-la também para combatê-los”. O delegado sustenta que as operadoras de telefonia devem sair do processo de interceptação para garantir a segurança nacional. Com 48 anos, 27 de polícia, Ferro deixa a corporação para se dedicar a uma empresa de consultoria na área de inteligência empresarial. Na entrevista, faz sua despedida e abre um pouco da caixa-preta. 

Por que o senhor está deixando a polícia, já que, apesar de ter tempo para se aposentar, poderia permanecer como outros colegas? Cansou?

Uma coisa é certa na nossa vida: o fim sempre chega. O que importa é como você sai. Em pé, de cabeça erguida, ou de joelhos, de cabeça abaixada. Sou suspeito para falar, mas saio de cabeça erguida. Não me cansei, mas sinto que já cumpri minha missão. Estou deixando meus discípulos. Chegou a hora de cuidar de interesses pessoais, da empresa de consultoria que vou abrir, cuidar da familia. Mas a polícia não sai da minha cabeça. Não me sinto antigo, mas é bom uma renovação.

Pela experiência e conhecimento que tem numa área tão estratégica como estava, ninguém pediu para o senhor ficar?

Sim, ocorreram diversos pedidos, inclusive do governador, mas ele entendeu minha posição.

A sua marca na polícia foi o investimento em tecnologia da informação para sofisticar as investigações, como os projetos Cérebro e Ion. Na prática, como funcionam?

O Cérebro é um grande sistema de análise de informações cognitivas que armazena a memória das investigações. Um grande banco de dados com os recursos computacionais que faz análise contextual do crime. Em vez de investigar de forma isolada, podemos enxergar o crime com maior amplitude. O uso mais recente dessa tecnologia, por exemplo, foi na Operação Aquarela (que investigou desvio de recursos públicos no Banco de Brasília há quase dois anos). No Cérebro, há conteúdo de interceptações telefônicas, informações de quebras de sigilo bancário. Antes, as informações iam embora com o inquérito. Agora, são jogadas no programa, que vai criando uma memória.

E o Projeto Ion muda em que o gerenciamento das escutas telefônicas?

Vamos instalar na Polícia Civil até julho. Apresentei a outros órgãos, como Conselho Nacional de Justiça, Anatel, operadores telefônicas, mas sinto resistência de implantá-lo em outras esferas. Já o Ministério Público do DF apoia. Tudo pode ser feito online. O juiz despacha dentro do sistema, aperta o botão e a interceptação será feita automaticamente, sem que a operadora fique sabendo. Não tramita papel algum, eliminamos todo um trâmite de vai e vem de papel. Um processo com certificação digital, comunicação criptografada, controle de acesso, passível de auditoria. O importante é tirar as operadoras desse processo. 

Por que é importante tirar as empresas de telefonia nesses casos?

A comunicação está na mão de empresas multinacionais e não querem perder poder de decisão. É gravíssimo deixar as interceptações nas mãos da operadora. Um caso de segurança nacional. As operadoras têm domínio sobre as informações das comunicações do governo brasileiro. Há interesse em espionagem em benefício de outros países. A Abin sabe disso. Se eu tiver dinheiro, compro a informação e grampeio. É fato. Estamos vulneráveis. Quem tem de dominar isso é o Estado. Como se pode grampear um diretor da operadora de telefonia? Ele vai saber quando chegar o mandado judicial chegar na empresa.

O senhor é temido por concentrar muita informação sigilosa. Para alguns, é muito poder em poucas mãos. Enfrentou dificuldades, pressões e críticas por isso?

Geralmente, quem deve teme. Sim, houve isso. Mas não adiantou. Eu era uma peça difícil de mudar. Sabia muita coisa. Mas guardarei para mim. Tenho ética.

Qual sua opinião sobre as críticas de que há abuso no uso das escutas telefônicas em investigações, que são alvo até de CPI no Congresso? 

Por parte das polícias não existe abuso. O que há às vezes é a irresponsabilidade de pessoas, desvio de finalidade, mas que em pouco tempo fica evidente e os responsáveis são punidos. Acredito que vai aumentar cada vez mais a necessidade de escutas. Todo mundo que quer praticar um crime precisa se comunicar. As pessoas hoje têm dois, três celulares. A tecnologia está disponível para os bandidos. A grande ferramenta para a polícia é o monitoramento de informações. O que adianta prender os caras depois que eles explodiram um prédio e mataram duas mil pessoas? Seria melhor monitorar as comunicações previamente e evitar que o grupo agisse.

O senhor está falando de terrorismo. Aqui no Brasil não temos isso. Dessa forma, então, todo mundo terá de ser monitorado?

Vai chegar a essa época. Não temos ação terrorista no Brasil, mas a violência vai aumentar, o tráfico vai crescer. E a nossa legislação está contra a modernidade, estamos na Era da Pedra. Colocar mais restrições nas interceptações é regredir no tempo. Quanto mais rígida a lei nesse caso, melhor para o crime organizado. Vou ao supermercado pedir uma ficha de um funcionário suspeito de ter ligação com o crime e tenho a informação negada. Eu que sou delegado de polícia não tenho acesso a informações de cadastro de
operadora telefônica, mas um estagiário de lá, que ganha R$ 800 tem. Se eu fosse do crime organizado pagava para ele salário de R$ 3 mil e ele me daria as informações.

E o vazamento das escutas para imprensa?

É perigoso, mesmo. É preciso um Conselho Gestor das interceptações telefõnicas. Nunca passei gravações para jornais . O Roriz acha que fui eu que passei a escuta da Operação Aquarela (gravação que levou o então senador a renunciar para evitar perda de direitos políticos) e não fui eu. Quando essas coisas vazam é por outras instâncias. A maior prova de minha isenção é que a Operação Aquarela começou aqui, comigo. Recebemos uma carta anônima com denúncias. Abrimos a investigação cujo alvo era o governo do qual participávamos. Não é responsabilidade minha se Roriz caiu nas escutas, não poderia impedir. Avisei apenas ao meu chefe direto, o diretor da Polícia Civil. Quando o caso chegou ao MP, já tínhamos vários volumes de informação.

Quantos telefones estão grampeados hoje no DF, claro, com autorização judicial?

Nos anos 90, a capacidade que tínhamos era de 30 por dia. Hoje, com o avanço tecnológico que adquirimos temos condições de monitorar 1,2 mil por dia. Mas estamos com 400 a pedido da Justiça

E no caso do grampo ilegal que fizeram no telefone da procuradora do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas do DF, Cláudia Fernanda, cujas gravações foram espalhadas pela cidade?

Abri a investigação. Fiz questão de apresentar e punir os culpados. Eram dois policiais que agiram de forma isolada. Foram punidos e só não apresentei os mandantes porque tiraram o inquérito daqui. Levaram para a Polícia Federal. Garanto que apontaria os mandantes.

A sua equipe fica. O que tem a dizer a ela?

Tive a oportunidade de trabalhar com excelentes profissionais e executar projetos ousados, coordenar grandes operações. Deixo minha marca como dirigente estratégico, um delegado que nunca chutou um flagrante, que nunca deixou de executar prisões, inclusive de policiais. Agradeço aos que me seguiram nesse caminho. Acho que cheguei no máximo da polícia. Agora não vou dar mais entrevista, não vou ter mais inimigos.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

CURRÍCULO

  1. Atividades Profissionais       
  • Advogado OAB 29.838
  • Fundador e Vice Presidente da TRUESAFETY LTDAwww.truesafety.com.br
  • Fundador e Diretor Presidente da CODOR LTDA. www.codor.com.br
  • Consultor em Inteligência, Segurança e Tecnologia da Informação
  • Pesquisador, Acadêmico, Coordenador e Professor de Cursos de Pós Graduação
  • Produção de artigos científicos na área de Inteligência
  • Diretor Científico Adjunto do Instituto Brasileiro de Inteligência Criminal. INTECRIM
  • Membro da International Association of Law Enforcement Intelligence Analysts – IALEIA.
 
  1. Atividade Anterior
  • Delegado de Polícia Civil do Distrito Federal. 28 Anos
  • Diretor do Departamento de Atividades Especiais. 10 Anos*
Obs: Coordenou e Comandou as Atividades de Inteligência Policial, Repressão ao Crime Organizado, Crimes Contra a Administração Pública, Crimes Tecnológicos, Operações Especiais, Repressão a Seqüestros, Operações Aéreas, Planejamento e Logística Operacional, Delegacia Eletrônica, Comunicação Organizacional, Análise Criminal, Armamento, Munições e Explosivos.

  1. Formação
  • Mestre em Gestão do Conhecimento e Tecnologia da Informação - Universidade Católica de Brasília. UCB. 2008.
  • Especialista em Inteligência Estratégica – Universidade Euro Americana. UNIEURO. 2002.
  • Especialista em Gestão da Tecnologia da Informação – Universidade de Brasília.  UNB. 2001.
  • Especialista em Polícia Judiciária – APC/UCB. 1998.
  • Ciclo de Estudos de Política e Estratégia ADESG/DF e UNB. 1996.
  • Bacharel em Direito – Centro Universitário do Distrito Federal. UNIDF. 1988

  1. Aperfeiçoamento Profissional
  • Advanced Management Course – Law Enforcement Affairs, ILEA, EUA. 2007.
  • Curso Superior de Polícia – Academia de Polícia Civil do Distrito Federal. 2001.
  • Operações de Inteligência. Vertente: Planejamento de Operações de Inteligência. ABIN. 2000.
  • Procedimentos de Inteligência. Vertente: Análise. ABIN. 2001.
  • Advanced Intelligence Course - Israel Military Industries Ltd. IMI, ISRAEL. 2000.
  • Lavagem de Dinheiro e Crime Organizado – Departamento de Polícia Federal. 1999.

Concentração de estudos em Gestão do Conhecimento, Inteligência Policial, Inteligência Estratégica. Interceptação Telefônica, Interceptação Ambiental, Cognição Investigativa, Análise de Vínculos, Gestão da Informação Policial, Sistemas Tecnológicos de Gestão e Inteligência Organizacional.


  1. Atividade acadêmica
  • Conferencista, Palestrante e Expositor diversos Seminários, Eventos Nacionais e Internacionais em assuntos de Segurança Pública.
  • Docente da Fundação da Escola Superior do Min. Público de MG (FESMP/MG). 2007.
  • Docente e Coordenador do Curso de Pós Graduação em Gestão da Segurança Pública e da Defesa Social da UPIS - Faculdades Integradas. Distrito Federal. 2003 e 2004.
  • Coordenador do Curso de Pós Graduação em Inteligência de Segurança Pública da ICAT/UNIDF. Distrito Federal. 2008.
  • Coordenador do Curso de Pós Graduação em Inteligência de Segurança Pública da FUNDAÇÃO UNIVERSA, Distrito Federal.
  • Docente no Curso de Pós Graduação em Direito Material e Processual Penal e Segurança Pública – UNI CEUB. Distrito Federal. 2005.
  • Docente da Academia de Polícia Civil do Distrito Federal. Disciplinas: Planejamento Estratégico, Planejamento Operacional, Investigação Policial, Tecnologia na Investigação Criminal, Inteligência Policial, Gestão da Informação Policial e Inteligência Organizacional.

  1. Prêmios, Homenagens e Condecorações
  • 2009. Reconhecimento Profissional. Polícia Civil do Distrito Federal.
  • 2008. Medalha do Bicentenário da Polícia Civil do Distrito Federal.
  • 2008. Conselho de Controle de /atividades Financeiras-COAF.
  • 2007. Medalha do Pacificador. República Federativa do Brasil. Ministério do Exército Brasileiro.
  • 2007. Medalha Mérito segurança Pública do DF.
  • 2005. 1º Lugar do Mestrado em Gestão do Conhecimento e Tecnologia da Informação, VII Workshop de T.I. da Universidade Católica de Brasília – UCB.
  • 2005. Ordem do Mérito Judiciário do DF. Tribunal de Justiça do Distrito Federal.
  • 2004. Medalha da Defesa Civil, Secretaria de Segurança Pública.
  • 2004. Medalha Dom Pedro II, Corpo de Bombeiro do Distrito Federal.
  • 2004. Diploma “Amigo da Abin” – Agência Brasileira de Inteligência.
  • 2003. Medalha Tiradentes, Polícia Militar do Distrito Federal.
  • 2003. Medalha Mérito Buriti, Governo do Distrito Federal.
  • 1999. Medalha Juscelino Kubistschek. Mérito Policial Civil da Polícia Civil do Distrito Federal.
  • 1998. Benemérito da Ordem, Grande Oriente Atividade.  
 
  1. Livros

SEGURANÇA PÚBLICA INTELIGENTE. Celso Moreira Ferro Júnior, Edemundo Dias de Oliveira Filho e Hugo César Fraga Preto. Editora Kelps. Goiás. 2007.

A INTELIGÊNCIA E A GESTÃO DA INFORMAÇÃO POLICIAL. Editora Fortium. Distrito Federal. 2008. 


  1. Artigos publicados
A GEOGRAFIA NA CIÊNCIA E ARTE POLICIAL: APLICANDO UMA CIÊNCIA ANTIGA NA SEGURANÇA PÚBLICA MODERNA. Celso Moreira Ferro Júnior e George Felipe de Lima Dantas. Disponível em: http://www.conteudojuridico.com.br/vdisk3/data/080902_capol_geografia.pdf. Acesso em: 13/05/2009.

A DESCOBERTA E A ANÁLISE DE VÍNCULOS NA COMPLEXIDADE DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL MODERAN. Celso Moreira Ferro Júnior e George Felipe de Lima Dantas. Disponível em: 

INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL: IDENTIFICAÇÃO DAS BASES DOUTRINÁRIAS PARA A INVESTIGAÇÃO CRIMINAL. Celso Moreira Ferro Júnior e Eduardo Amadeu Dutra Moresi. DatagramaZero, Revista de Ciência da Informação, v.9, n.1, fev08. Disponível em: http://www.datagramazero.org.br/fev08/F_I_art.htm Acesso em: 13/05/2009.

O CONTEXTO DO CRIME E AS BASES PARA A INTELIGÊNCIA ORGANIZACIONAL NAS POLÍCIAS JUDICIÁRIAS. Celso Moreira Ferro Júnior e George Felipe de Lima Dantas. Disponível em: http://www.trgroup.com.br/upload/Artigo_Celso_Ferro_e_George_Felipe_Dantas_IACP_04AGO2008%202.pdf Acesso em: 13/05/2009. Apresentado na INTERSEG e IACP (International Association of Chiefs of Police). Curitiba/PR. 2008.

GESTÃO DE INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS E AMBIENTAIS. Celso Moreira Ferro Júnior. Revista Consulex, n.191, pg. 26. Dezembro de 2004.

INTELIGÊNCIA DE SEGURANÇA PÚBLICA. Celso Moreira Ferro Júnior. Revista Phoenix. Sindepol Brasil. Edição nº X, Ano V. São Paulo. 2008.

A TECNOLOGIA NA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL. Celso Moreira Ferro Júnior. Revista Phoenix. Sindepol Brasil. Edição Especial nº VII, Ano III. São Paulo. 2006.

COGNIÇÃO ORGANIZACIONAL: UM ESTUDO DA TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO APLICADA À ANÁLISE DE VÍNCULOS NA ATIVIDADE POLICIAL. Celso Moreira Ferro Júnior e Charles F. Alves. VII Workshop de Tecnologia da Informação, 2005, Brasília-DF. KM Brasil, 2005.